(Português) Marreta pneumática: violência por trás do consumo de carne

ORIGINAL LANGUAGES, 9 Mar 2020

David Arioch | Vegazeta – TRANSCEND Media Service

“O pino perfura o osso do crânio e destrói parte do cérebro do animal, deixando-o inconsciente”.

Encaminhados para um “box”, uma “caixa” com paredes móveis, onde ocorre, para utilizar um eufemismo tradicional nesse meio, o “atordoamento”.
(Fotos: Shutterstock)

Antes da carne estar ao alcance das mãos do consumidor, há um processo que se inicia com a criação e engorda de animais até que sejam qualificados como “aptos para o abate”.

No caso dos bovinos, isso costuma ocorrer com idade variável, já que primeiro os pecuaristas precisam definir que demanda da indústria da carne eles desejam priorizar. Até porque mercados que requerem carnes consideradas “especiais e mais macias” exigem abate de animais cada vez mais jovens.

Preferência por novilhos precoces e bois

No Brasil, embora haja também abate de bezerros para consumo, a preferência é por novilhos precoces e bois. Assim, quando falamos em carne vermelha, o mercado nacional se volta mais para o abate de bovinos com idade que pode variar de 15 a 48 meses, o que não deixa de ser uma realidade distante da expectativa de vida de até 20 anos.

Quando o animal alcança o peso considerado ideal, já antecipando o que pode ou não ser “aproveitado da carcaça”, ele é vendido para o frigorífico. Na linha de abate, é encaminhado para um “box”, uma “caixa” com paredes móveis, onde ocorre, para utilizar um eufemismo tradicional nesse meio, o “atordoamento”.

No Brasil, um processo comum nos grandes matadouros consiste em utilizar uma marreta pneumática, um mecanismo maior que a pistola, com pino retrátil que é disparado contra a parte superior da cabeça das vítimas.

É comum os animais vomitarem

“O pino perfura o osso do crânio e destrói parte do cérebro do animal, deixando-o inconsciente”, informa a página 32 do Guia Técnico Ambiental de Abate (Bovinos e Suínos), de José Wagner Pacheco, disponibilizado pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb).

Ou seja, nessa etapa o impacto da ação faz com que o animal, que perde suas características e inerências naturais, deixe de ser um animal em decorrência da violência, aproximando-se mais ainda de sua qualificação como bem de consumo.

“Após esta operação, uma parede lateral do ‘box’ é aberta e o animal atordoado cai para um pátio, ao lado do ‘box’, de onde é içado com auxílio de talha ou guincho e de uma corrente presa a uma das patas traseiras, sendo pendurado em um trilho aéreo (nória). Nesta etapa é comum os animais vomitarem…”, relata o Guia Técnico Ambiental de Abate.

Pendurado com patas para cima e degolado 

Depois de ter o cérebro destruído, o animal é pendurado com as patas para cima e degolado, como parte do processo de sangria – seguido por esfola, remoção do couro e cabeça, evisceração e refrigeração.

São etapas que fazem parte do cotidiano desconhecido pelo consumidor que tem apenas o trabalho de se deslocar até um açougue ou mercado para comprar o resultado de uma violência que somente no Brasil é destino comum de milhões de bovinos a cada mês.

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David Arioch é jornalista profissional, historiador e especialista em jornalismo cultural, histórico e literário.

 

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