(Português) Espiritualidade e Virtude como Corolários para a Paz

ORIGINAL LANGUAGES, 6 Apr 2015

Antonio C. S. Rosa | Editor - TRANSCEND Media Service

O autor em Praga, República Checa, Ano Novo 2009

(Read the English version HERE)

Consciência: certo/errado

Mente: gosto/não gosto, quero/não quero

Inteligência-Intelecto-Conhecimento-Ignorância-Emoções: instrumentos

Pensamento-Fala-Sentidos: canais de comunicação

Subtraímos, reduzimos a realidade quando nos concentramos quase que exclusivamente no nosso intelecto, conhecimento e inteligência ao avaliamos como poderiam ou deveriam ser o presente e o futuro.

Fico fascinado com a evolução científica, particularmente nos ramos da astronomia, cosmologia, física quântica e medicina. Avanços médico-tecnológicos desvendaram o interior do cérebro humano, por nós considerado superior, o qual é tão complexo, dinâmico e fascinante como o próprio universo. E cientistas continuam a enviar para o espaço mensagens “inteligentes” na esperança de que outros seres também “inteligentes” as recebam e lhes retransmitam respostas, completando assim a experiência humana que mudará para sempre a vida, um encontro imediato de um grau qualquer. Eles assumem que seres ‘lá fora’ possuam mentes e intelectos similares aos nossos.

Porém: E se seres extraterrestres, na eventualidade de existirem, não estiverem interessados em inteligência/conhecimento mas em qualidades diferentes? Como, por exemplo, civilização e ética avançadas, códigos morais elevados, consciência desenvolvida,  avanço espiritual ao invés de avanço material, ausência de agressividade? Ou outros fatores não tangíveis e portanto fora do escopo das ciências humanas contemporâneas?

Alguns filósofos discorreram elegantemente sobre essas qualidades intangíveis. Mas no nosso século XXI pragmático, empírico, materialista, selvagem, beligerante, utilitarista, realista, científico, tecnológico e tecnocrático, tais discursos são considerados exercícios em futilidade. Pessoas sérias, que pensam sériamente em coisas sérias, não se ocupam com aspectos imateriais, não empíricos. Um país “avançado” é definido por elas como o que possui maior potência bélica, supremacia econômica, e com maior capacidade de dominar a outros — por qualquer meio necessário. Não diferente de animais, insetos e aves em estado selvagem. O nome deste jogo é concorrência, sendo que solidariedade, se bem que louvável, não tem futuro. É a sobrevivência do mais forte, segundo a teoria (não um fato) da evolução (material) de Darwin.

Virtude é um defeito de caráter que deve ser escondido, ou melhor, suprimido, para quem quiser ser bem sucedido no mundo moderno. Pois uma pessoa virtuosa será tida e tratada como se fosse ingênua, simplória, com QI inferior, ignorante, uma idiota. Humildade é para determinadas classes de pessoas (os santos, por exemplo). Não se deve exibir sequer aparência de humildade para evitar ser socialmente pisoteado. Somos socializados, condicionados, educados, governados a acreditar em tais preconceitos culturais/estruturais do nascimento ao caixão. É o que pessoas razoáveis esperam de outras pessoas igualmente razoáveis. Não evoluidas. Razoáveis.

Cientistas teorizam e avançam hipóteses sobre espaços multi-dimensionais, teoria das cordas, brane theory e universos múltiplos, os quais são vislumbrados e/ou imaginados unicamente em equações e modelos criados a partir das limitações dos conhecimentos e inteligências dos próprios – respeitáveis, num contexto terreno. Porém, acreditar em tais hipóteses matemáticas não é muito diferente de acreditar em hipóteses baseadas em espiritualidade e consciência. O dominador comum permanece: a crença.

E se os extraterrestres não estiverem interessados em selvagens inteligentes e com conhecimentos? Os quais, organizados em grupos, encontram-se no apogeu da sua capacidade e inclinação para explorar, matar, mutilar, torturar, causar dor e sofrimento uns aos outros e a outros animais – sem remorso – em um planeta onde eles são parasitas/predadores? Cujos historiadores definem história como relatos épicos de conquistas, guerras, batalhas, invasões, genocídios, carnificinas,, derramamento de sangue, escravidão, fome, crimes? Exaltando como heróis a líderes e estrategistas militares que se dedicam exclusivamente a ferir, matar e destruir? Onde o conceito de virtude foi sequestrado e distorcido tanto por religiões vigentes como por militares?

E se eles não morrerem de admiração pelas façanhas e invenções científico-tecnológicas, frutos da nossa inteligência superior, sendo usadas primariamente para perpetuar conflitos armados, vendetas, vinganças, crueldades, controles sociais-culturais-econômicos, e ameaça de Armagedom se os mais fortes não obtiverem o que querem? Com nações compostas de pessoas desprovidas de qualquer semelhança com a definição poética e idealizada de um ‘ser humano’ civilizado, sapiens, superior? E se eles estiverem interessados numa evolução espiritual ao invés desta evolução material (uma contradição em têrmos)? Seria este o motivo de autoridades políticas e militares nunca terem sido visitadas ou procuradas por supostos visitantes extraterrestres ao nosso planeta? Steven Spielberg esteve, talvez, mais próximo da realidade, com o enredo de seu filme de 1982, ET – um record de bilheteria.

Há tribos na Amazônia que não foram ainda contactadas se bem que saibamos há décadas que elas existem. Temos fotos delas. Mas os nativos mostram um grau de agressividade/ignorância tal que não faz sentido para as autoridades brasileiras tentar um contato direto. Pois eles poderiam ser mortos — ou matarem — desnecessariamente no processo. Eles arremessam flexas [a sua tecnologia] contra aviões, os seus OVNIs. Nós, por outro lado, temos armas nucleares prontas para os nossos OVNIs, os quais insistem em nos sobrevoar sem explicações plausíveis. Audácia! Eles têm de ser malígnos.

É aqui que as nossas inteligencias e intelectos superiores falham. Tenho motivos para crer que a natureza, o universo, a própria vida (vamos deixar os deuses fora disto) nos ‘programaram’ para sermos seres superiores, elevados em virtude, bondade, justiça, integridade, ética, honestidade, moralidade, honestidade, consciência evoluída, e não meramente para ficarmos mais ricos, mais sexys, mais espertos e mais experientes para dominarmos tudo e todos que contemplamos — se necessário pela força. A realidade não é reduzivel a tal mediocridade. O perigo é que pessoas com ‘autoridade’, que se julguem ‘mais inteligentes’, e definitivamente mais agressivas (isto é, menos civilizadas) possam fazer explodir o planeta por meio de uma guerra termonuclear, criando assim um segundo cinturão de asteróides ao redor do sol.

No entanto, recuso-me a vislumbrar este cenário apocalíptico no nosso futuro. Assim como discordo do autor nobelista William Goldman em seu aclamado romance, Lord of the Flies (O Senhor das Moscas), que retrata estudantes adolescentes ingleses perdidos numa ilha deserta, após um acidente de avião, os quais descambam para selvageria e até mesmo canibalismo, dividindo-se em “tribos”, em um período de apenas alguns meses. Pelo contrário, o movimento natural dos seres é evoluir, melhorar, aperfeiçoar — se com contratempos.

Todo Yin carrega em si o seu oposto, Yang — e vice-versa –, em um movimento cósmico de reciclagem eterno e infinito. A energia nunca é destruída, apenas transformada. E na evolução espiritual, nunca há perda.

Quando conheci o autor de O Tao da Física, Fritjof Capra, na Universidade do Havaí nos anos 80, ele me disse, sorrindo: “Quando nós, os físicos, chegarmos ao cume da montanha, seremos recebidos por místicos e espiritualistas que dirão: ‘porque demoraram tanto‘”? Os físicos, astronomos, cosmólogos e matemáticos de hoje estão mais próximos do cume com a sua busca da evasiva”partícula de Deus” ‘God particle,’ também conhecida como bóson de Higgs – mas com seus preconceitos contra a espiritualidade intactos. Stephen Hawking, supostamente uma das pessoas mais inteligentes do planeta, tenta converter outros à sua crença de que o universo “não precisa de deus”. O subtexto sendo que o universo é um deus em si e por si próprio. Albert Einstein, no entanto, é a exceção que confirma a regra, tal como Carl Jung. E Gandhi, é claro, a antítese de um político.

O processo de viver pacificamente depende pois do grau de avanço espiritual (e não religioso), como um corolário para mudanças de paradigmas sociológicos e de externalidades sociais. Estudos de Paz e de Conflito, entre outros fatores civilizadores para os seres humanos, representam, assim, a receita, o mapa para o cume da montanha. A paz é um trabalho interior e também exterior; um processo para indivíduos, órgãos sociais e coletividades trilharem permanentemente. O planeta sendo o indivíduo supremo e último.

Concordo com a afirmação do Prof. Johan Galtung, de que o intelectual e o emocional fluem juntos mentalmente. E com Mahatma Gandhi, de que a paz não é divorciada da espiritualidade. Tudo tem início e cresce dentro do indivíduo, manifestando-se depois na sociedade. Ou não.

________________________________________________

Antonio Carlos da Silva Rosa, born 1946, is founder-editor of the pioneering Peace Journalism website, TRANSCEND Media Service-TMS (from 2008), an assistant to Prof. Johan Galtung, Secretary of the International Board of the TRANSCEND Network for Peace Development Environment, and recipient of the Psychologists for Social Responsibility’s 2017 Anthony J. Marsella Prize for the Psychology of Peace and Social Justice. He completed the required coursework for a Ph.D. in Political Science-Peace Studies (1994), has a Masters in Political Science-International Relations (1990), and a B.A. in Communication (1988) from the University of Hawai’i. Originally from Brazil, he lives presently in Porto, Portugal. Antonio was educated in the USA where he lived for 20 years; in Europe-India since 1994. Books: Transcender e Transformar: Uma Introdução ao Trabalho de Conflitos (from Johan Galtung, translation to Portuguese, 2004); Peace Journalism: 80 Galtung Editorials on War and Peace (2010, editor); Cobertura de Conflitos: Jornalismo para a Paz (from Johan Galtung, Jake Lynch & Annabel McGoldrick, translation to Portuguese, 2010). TMS articles by Antonio HERE. Videos HERE and HERE.


Tags: , , , , , , , , , , , , ,

 

This article originally appeared on Transcend Media Service (TMS) on 6 Apr 2015.

Anticopyright: Editorials and articles originated on TMS may be freely reprinted, disseminated, translated and used as background material, provided an acknowledgement and link to the source, TMS: (Português) Espiritualidade e Virtude como Corolários para a Paz, is included. Thank you.

If you enjoyed this article, please donate to TMS to join the growing list of TMS Supporters.

Share this article:

Creative Commons License
This work is licensed under a CC BY-NC 4.0 License.


Comments are closed.