(Portuguese) O Mapa Hexagonal do Mundo Multipolar

IN OTHER LANGUAGES, 10 September 2012

by Johan Galtung – TRANSCEND Media Service

Como é que enfrentamos, intelectualmente, o mundo de hoje?

Há algum tempo atrás, o mapa geopolítico era baseado no conflito direto Leste/Oeste, as duas superpotências EUA / URSS, e os seus aliados, e sendo os não-alinhados neutrais, considerados como uma categoria residual. O mundo era Bipolar. A implosão da URSS fê-lo Unipolar , com uma “única superpotência sobrevivente”, 2-1=1. Como nos foi dito.

Hoje temos quatro grandes Estados: os três maiores em população, China-Índia-EUA, e o maior em território, Rússia.  E ainda a UE, uma região com cinco estados de tamanho médio: Reino Unido-França-Alemanha-Itália-Espanha.

Mas há um outro pólo no mapa geopolítico: o Islão.

A Organização para a Cooperação Islâmica – OIC – é menos homogénea mas o maior de todos os pólos, com 57 países desde Marrocos até Mindanau [ nas Filipinas]. No meio, entre o Ocidente e o Oriente, como a Rússia ao norte, a OIC é um cinturão sul entre os dois.

O emergir do Islão no mapa geopolítico, remonta ao final da Guerra-fria, que provocou um vazio na posição de inimigo, tanto do Ocidente, como dos EUA em particular. A Perversa URSS, estava para os Bons EUA, como Satanás para Deus. Tanto o Islão como a China, tinham credenciais suficientes para que a construção bipolar pudesse recomeçar.  Isto também serviu para cristalizar a China geopoliticamente, e fará o mesmo com a OIC; curto prazo e longo prazo, pura dialética.

Uma grande mudança em apenas duas décadas, 1989-2008, desde o final da Guerra Fria em Leipzig, até à Grande Depressão vinda de Wall Street. Não há como negar que os EUA e os seus aliados ocidentais e alguns outros, possuem um considerável poder de destruição cega, incluindo de morte. Mas as superpotências tinham impérios, com fiéis elites locais que lhes faziam a maior parte do trabalho.  A URSS perdeu o seu império no início dos anos 90, o mesmo parece estar a acontecer agora com os EUA.

O que foi dito até aqui mostra-nos um mundo multipolar, mais exactamente Hexagonal, com seis pólos: dois a oeste, dois no meio, dois no Oriente:

O que nos leva a duas questões cruciais:

* O que é que de melhor cada pólo tem a oferecer pela paz?

* O que é que de pior cada pólo tem a oferecer pela paz?

As respostas são, no mínimo, questionáveis, mas vamos tentar:

O que oferecem de melhor / O que oferecem de pior

PAÍSES/ BLOCOSASSOCIAÇÕES O QUE OFERECEM DE MELHOR O QUE OFERECEM DE PIOR
EUA Novos começos Plutocracia Geo-fascista
EU Comunidade de Paz Tecnocracia
RÚSSIA Des-imperialização Autocracia
CHINA Taoismo Capit-comunista Sino-centrismo
INDIA Federalismo linguístico Sistema de castas
OIC Partilha Fraterna Terrorismo

A coluna positiva,  não é má de todo:

EUA – Criatividade, com Novos Começos individuais e colectivos; EU – uma comunidade em paz de velhos inimigos; Rússia – um discreto desmembramento do império; China – capi-comunismo, que combina crescimento com a promoção das classes sociais mais baixas; Índia – com seu federalismo linguístico; O Islão – com Nossas-culturas e partilha.

A coluna negativa,  muito ruim:

Os EUA – regidos pelo dinheiro matando em qualquer lugar; uma UE – gerida por tecnocratas; a Rússia – governada por autocratas; A China – demasiado centralizada em si própria; A Índia – apegada às castas; O Islão – ao terrorismo.

O que acima dizemos servirá como introdução aos seis pólos do drama global, dramatis personae. O projeto Hexágono TRANSCEND, que será elaborado respeitando o tradicional esquema diagnóstico-prognóstico-terapia, ou seja, análise, previsão e proposta. Exemplos de temas, [a desenvolver]:

  • Importância política das diásporas  – A diáspora Islâmica, de longe, a maior, 5% do total, em termos de comunicação, de poder, refém, da forma como se comportam e como são tratados. A diáspora Ocidental será analisada pelo número de cristãos e judeus, em face dos outros. Serão feitos estudos separados de cada um deles, começando pela maior, ou seja, a diáspora do Islão no Ocidente, na Europa e nos EUA.
  • Os seis serão analisados de acordo com suas mensagens para paz e desenvolvimento, seus pontos fortes, fraquezas e limitações, seus altos e baixos, e os seus  melhores e piores aspetos; promotores ou contra-promotores, da paz e do desenvolvimento.
  • As 15 relações bilaterais serão consideradas numa perspetiva macro-histórica. Exemplo: as relações entre a China e o Ummah [1] 500-1500 DC, a “rota da seda” marítima, e a conquista por Portugueses e Ingleses de Macau-Hong Kong. Poderá o Islão, uma religião Abraãmica, servir como uma ponte, do Sul para o Oriente também hoje?  E poderá a Rússia, Cristã Ortodoxa, servir como ponte a Norte?
  • Os 15 pares serão analisados pelos traumas e reconciliações ocorridas no passado e pelas presentes contradições existentes e resoluções, tendo mesmo em consideração os piores aspetos. Apenas cinco são predominantemente negativos, mas há muitos preconceitos, como o anti-semitismo contra judeus, e muçulmanos e o anti-ocidentalismo – há muita discriminação a superar.
  • Os 15 pares serão analisados em termos da cooperação e harmonia latentes; incluindo o que podem aprender uns com os outros, usando também os seus melhores aspetos.
  • A sinergia dos “membros” do Hexágono e suas relações produz tendências positivas e negativas para os diferentes tipos de globalização, holística e dialecticamente, com os atores externos do Hexágono, como os BRICS [2] . Este novo começo da TRANSCEND dará origem a um fluxo de Documentos de Trabalho à medida que o projeto se desenvolver.  Serão publicados na “Weekly Digest” do TRANSCEND Media Service-TMS e no Canal da Paz TRANSCEND-TPC.

Fiquem atentos!

­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­NOTAS:

[1] No Islão, a comunidade constituída por todos os muçulmanos do mundo, unida pela crença em Alá, no profeta Muhammad (Maomé), nos profetas que o antecederam, nos anjos, na chegada do dia do Juízo Final e na predestinação divina.

[2] Países emergentes, Brasil, Rússia, Índia, China…

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Johan Galtung, é professor de estudos da paz, dr. hc. MULT., reitor da TRANSCEND Peace University-TPU. É autor de mais de 150 livros sobre a paz e estudos relacionados, onde se inclui “50 Years – 100 Peace and Conflict Perspectives,” publicado pela TRANSCEND University Press-TUP.

 Original em inglês: TRANSCEND Media Service-TMS

Tradução livre da responsabilidade de Forum Abel Varzim, Lisboa, Portugal, agosto de 2012.

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